Contos e Lendas
Cantanhede - Relíquia do pão e queijo
Querem ver como se desfaz uma lenda sobre a origem de um topónimo?
Pois diz o povo que havia uma moura encantada chamada Nhede que costumava cantar à noite. Voz maviosíssima. Uma noite passou-lhe sob as janelas um homem que não se conformava que ela se calasse sequer um breve instante e suplicava:
- Canta, Nhede! Canta, Nhede!
Mas acontece que Cantanhede veio do latim”cantinieti” (vila) isto é “(quinta) da cantadeira ou (pedreira) de cantaria”. Cantonietum é um substantivo colectivo derivado cantonius, e este de cantus, “pedras”. Em 1807, Cantonied e Cantoniede ! É assim… Mas a freguesia de Ançã foi o espaço geográfico a que foi confinado pelo Rei D. Pedro II o marquês de Cascais . E ali passou os seus últimos dias. Ora, conta a lenda qe o marquês, habituado à boémia da capital, onde também tinha todos os seus negócios, resolveu arranjar um expediente que lhe permitisse desobedecer – e não desobedecer – à ordem real de não abandonar a terra de Ançã. E, assim, mandou cobrir o chão da sua carruagem com a referida terra, levando mais uns sacos dela, que espalhou por todo o seu palácio.
Sabedor que o marquês se encontrava em Lisboa, o próprio rei foi pedir-lhe contas da desobediência, mas o fidalgo, exibindo toda a terra de Ançã espalhada pelos seus salões, respondeu-lhe:
- Dedde o meu desterro não deixei de calcar e pôr o pé na terra do degredo, ba terra de Ançã.
Pois na porta principal da Capela de São Bento, nesta mesma Ançã, há uma inscrição cujos dizem, mais ou menos, o seguinte: «Esta Santa Casa se fez de esmolas no ano de 1599, no qual havendo a peste geral em todo este reino durou por muito tempo e nesta vila por interferência do glorioso São Bento não durou mais que vinte dias». Na verdade, a grande epidemia pestífera do século XVI devastou toda a Zona Centro. Porém, aos primeiros sinais, o povo de Ançã rezou a São Bento, que o protegeu.
Pois em nçã se festejam devotamente os aniversários do seu padroeiro. E as cerimónias tinham tal demora que os padres levavam sempre uma merenda de pão e queijo, não só para seu sustento como para as crianças que, esfomeadas, assistiam. Ao longo dos tempos, tornou-se uso da festa beneditina a distribuição de pão e queijo no final dos actos litúrgicos.
E o curioso é que este pão passou a assumir a importância de relíquia, pois muitos fieis não o comem, antes o levam para suas casas, onde, dizem, se conserva anos sem apanhar bolor. E ainda hoje os irmãos de São Bento, após o pagamento das suas quotas e, eventualmente, de promessas, levam para casa as já célebres relíquias de pão e queijo.